A psiquiatria está prestes a ganhar seus exames de sangue? Veja que a ciência diz
Estudo europeu sugere que o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade poderá estar associado a níveis mais elevados de criatividade.
A psiquiatria sempre foi uma especialidade construída, antes de tudo, na escuta.
É a partir da história de cada pessoa, dos seus sintomas e da forma como ela vive e sente o mundo que conseguimos compreender o que está acontecendo e definir o melhor caminho de cuidado.
Nos últimos anos, porém, uma discussão ganhou força nos principais centros de pesquisa e congressos internacionais: a possibilidade de incorporar biomarcadores ao diagnóstico e ao tratamento em saúde mental.
Biomarcadores são sinais biológicos mensuráveis, como alterações em exames de sangue, padrões genéticos ou características do funcionamento cerebral. Em outras áreas da medicina, eles já fazem parte da prática clínica. Na psiquiatria, ainda estamos em um momento de transição.
Instituições como a European College of Neuropsychopharmacology (ECNP), a World Psychiatric Association e o National Institute of Mental Health (NIMH), nos Estados Unidos, têm colocado a chamada psiquiatria de precisão no centro das discussões recentes. O objetivo é reduzir um dos maiores desafios da área: a variabilidade na resposta ao tratamento.
Hoje, é comum que dois pacientes com o mesmo diagnóstico apresentem trajetórias muito diferentes. Sintomas, intensidade do sofrimento e resposta aos medicamentos podem variar bastante. Isso acontece porque, apesar de utilizarmos categorias diagnósticas semelhantes, estamos lidando com condições que não são biologicamente idênticas.
É nesse ponto que entram os estudos mais atuais.
Pesquisas publicadas em revistas como *The Lancet Psychiatry* e *Nature Medicine* vêm investigando a relação entre inflamação e depressão, marcadores genéticos associados à resposta a antidepressivos e padrões de atividade cerebral identificados por neuroimagem. Além disso, há um avanço importante no uso de dados digitais, como padrões de sono, comportamento e interação, para entender melhor a evolução dos quadros clínicos.
Esse conjunto de estudos sustenta a ideia de uma psiquiatria mais individualizada, em que decisões terapêuticas possam ser cada vez mais direcionadas para o perfil específico de cada paciente.
Mas é fundamental trazer esse tema com responsabilidade.
Apesar do avanço científico, ainda não existe nenhum exame de sangue capaz de diagnosticar, de forma isolada, transtornos como depressão, ansiedade ou bipolaridade. Esse é um consenso entre os próprios pesquisadores.
Os biomarcadores estudados até agora são promissores, mas ainda não apresentam consistência suficiente para serem utilizados de forma ampla na prática clínica. A complexidade do cérebro e da experiência humana não pode ser reduzida a um único marcador biológico.
O que já começa a aparecer na prática são ferramentas complementares, como testes farmacogenéticos que auxiliam na escolha de medicamentos e tecnologias que ajudam a monitorar sintomas ao longo do tempo. Ainda assim, essas ferramentas não substituem a avaliação clínica.
A psiquiatria continua sendo, essencialmente, uma especialidade que exige escuta, vínculo e compreensão da história de vida.
Nenhum exame consegue traduzir, sozinho, o contexto emocional, as relações, as perdas, os conflitos e os significados que fazem parte do sofrimento psíquico.
Por isso, quando falamos sobre o futuro da psiquiatria, não estamos falando em substituir o cuidado humano pela tecnologia.
Estamos falando em integrar.
Integrar conhecimento científico, dados biológicos e, principalmente, a singularidade de cada pessoa.
O avanço é real e deve transformar a forma como cuidamos da saúde mental nos próximos anos. Mas ele não muda o que é mais importante.
O centro do cuidado continua sendo a pessoa.